Perfeccionismos e perfeccionistas

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Nos últimos anos, tornou-se muito comum entre nós, cristãos adventistas do sétimo dia,  o uso dos termos “perfeccionista” e “perfeccionismo”. Dada a minha formação acadêmica, isso me chamou muito a atenção e, há pelo menos 8 anos, venho observando a maneira como esses termos são utilizados. O perfeccionismo é objeto de estudo de pesquisadores da área da Psicologia, e por diversas vezes percebo que o uso que se tem feito do termo acaba sendo uma mistura da concepção da Psicologia acerca do tema com a concepção da Teologia Adventista.

Nos parágrafos a seguir, pretendo explicar um pouco sobre o que é perfeccionismo para a Psicologia e como o conceito psicológico se difere do conceito teológico. Não tenho a pretensão de esgotar o assunto em um post e sugiro, desde já, que você pesquise o assunto por si mesmo a fim de ampliar sua compreensão sobre ele.

O que é perfeccionismo para a Psicologia?

O perfeccionismo é um traço de personalidade e tem sido definido por estudiosos como uma tendência para (1) estabelecer padrões que são excessivamente elevados, (2) aderir rigidamente a esses padrões e (3) realizar autoavaliações demasiado críticas. Diversos estudos comprovam a existência de uma relação entre o perfeccionismo e perturbações psicológicas, tais como depressão, insônia, stress, transtornos de ansiedade e transtornos do comportamento alimentar. A presença do perfeccionismo em quadros psicopatológicos como os citados acima pode contribuir para uma maior severidade dos sintomas, assim como uma evolução mais lenta do tratamento e maior probabilidade de recaídas após o término deste.

Para alguns pesquisadores, o perfeccionismo é um traço de personalidade disfuncional e desadaptativo. Já, para outros estudiosos, há um perfeccionismo que pode ser considerado normal ou adaptativo. Esse perfeccionismo adaptativo tem a ver com um esforço para atingir padrões razoáveis e realistas e a produção do sentimento de satisfação e aumento da autoestima ao atingir esses padrões. Alguém com esse tipo de perfeccionismo é capaz de considerar tanto a força quanto a limitação que possui, consegue sentir prazer ao realizar atividades que requerem grande esforço e se sente livre para ser menos preciso de acordo com a situação. Essa é a versão positiva do perfeccionismo.

Já o perfeccionismo ruim, que é um perfeccionismo neurótico, está relacionado a uma preocupação excessiva em cometer erros, uma culpabilização incapacitante de si mesmo, autocrítica excessiva, sentimento contínuo de que as expectativas auto impostas não estão sendo alcançadas, e preocupação em desapontar outras pessoas. Esse tipo de perfeccionismo é perturbador e gera sofrimento.

Independentemente do tipo de perfeccionismo, adaptativo ou desadaptativo, o desenvolvimento desse traço de personalidade ocorre por influência de uma série de fatores. De igual modo, o reconhecimento da presença desse traço de personalidade requer a avaliação de diversos fatores também. O instrumento psicométrico utilizado para realizar essa avaliação se chama Escala Multidimensional de Perfeccionismo e é composta por um total de 45 itens. Perceba que existem critérios para se afirmar que alguém é ou não é perfeccionista, segundo a Psicologia. Não é simplesmente porque a pessoa é mais atenta a detalhes, tem o desejo de fazer tudo certo, ou é mais esforçada em suas atividades do que os demais, que ela é perfeccionista. E ainda que ela seja perfeccionista, isso não é necessariamente um problema, visto que existe uma forma adaptativa do perfeccionismo. Pode, inclusive, ser uma vantagem, dependendo de como esse perfeccionismo se configure.

Ao final deste texto, você encontrará algumas sugestões de leitura que podem lhe ajudar a entender um pouco melhor sobre a perspectiva da psicologia acerca do perfeccionismo.

O perfeccionismo e os adventistas.

Além do conceito de perfeccionismo adotado pela Psicologia, existe um perfeccionismo que não está relacionado a traço de personalidade mas a uma compreensão equivocada de assuntos como justificação pela fé e santificação. Eu afirmo isso porque uma pessoa que tem o perfeccionismo como traço de personalidade pode não ser um perfeccionista do ponto de vista teológico. Da mesma forma, alguém que seja perfeccionista do ponto de vista teológico não é necessariamente perfeccionista do ponto de vista psicológico.

Sobre o perfeccionismo teológico a irmã White escreveu: “Os que entraram nesse fanatismo [carne santa] e o mantiveram, fariam muitíssimo melhor em estar empenhados em obra secular; pois devido a sua atitude incoerente, estão desonrando ao Senhor e pondo em perigo o Seu povo.” (Mente, Caráter e Personalidade, vol. 1, pág. 43).

No livro Mensagens Escolhidas, volume 2, o terceiro capítulo tem como título “A Doutrina da “carne santa””. Sugiro a leitura completa desse capítulo, pois é bastante esclarecedor sobre o assunto. Basicamente, o que os defensores dessa doutrina acreditavam e acreditam (já tive a oportunidade de conversar com um deles) é que é possível nesta vida possuirmos carne santa e, portanto, viver na impossibilidade de pecar. Sobre isso, Ellen White declara: “Todos podemos obter agora corações puros, mas não é correto pretender nesta vida possuir carne santa. […] Ser humano algum na Terra tem carne santa. É uma impossibilidade.” (Mensagens Escolhidas, vol. 2, pág. 32). E o grande perigo dessa doutrina se encontra aqui: “Seja esse aspecto de doutrina levado um pouco mais longe, e conduzirá à pretensão de que seus defensores não podem pecar; de que uma vez que tenham carne santa, suas ações são todas santas. Que porta de tentação se abriria assim!” (Mensagens Escolhidas, vol. 2, pág. 32).

Fidelidade versus perfeccionismo

Isso nada tem a ver com desejar obedecer fielmente a tudo o que Deus ordena. E é aqui que percebo que ocorre uma certa confusão em nosso meio. Com frequência, pessoas que procuram obedecer a Deus em todos os aspectos da vida cristã – devolução dos dízimos e doação de ofertas, alimentação, vestuário, recreação, relacionamentos afetivos, etc – são de forma inadequada rotulados de perfeccionistas por irmãos que não compreendem corretamente o que é o perfeccionismo teológico. Seguindo os critérios de avaliação desses irmãos, se os personagens bíblicos Jó, Daniel e José (filho de Jacó) estivessem vivos hoje, seriam chamados de perfeccionistas. Paulo seria, talvez, o maior de todos os perfeccionistas, que além de tudo seria visto como presunçoso por afirmar “sede meus imitadores, como também eu de Cristo” (I Coríntios 11:1).

Buscar ser fiel a Deus em tudo não tem nada a ver com perfeccionismo. Isso é cristianismo. Se observarmos bem, a crença perfeccionista coloca o sujeito em uma posição contrária à conduta de fidelidade. Uma posição que pressupõe que não importa o que ele faça, se ele faz não é pecado pois ele não pode (no sentido de lhe ser impossível) pecar.

Desejar um caráter semelhante ao de Cristo e ter Jesus como nosso Modelo também costuma ser confundido com o perfeccionismo teológico. No entanto não é. “[…] um caráter semelhante ao caráter de Cristo é a evidência que precisamos apresentar, de que Deus enviou o Seu Filho ao mundo. Os que professam ser cristãos, mas não fazem como Cristo faria Se estivesse em seu lugar, ofendem grandemente a causa de Deus. Eles representam mal o seu Salvador e se mostram sob falsas cores.” (Beneficência Social, página 37). Buscar diariamente desenvolver um caráter semelhante ao de Cristo Jesus é ser cristão e é uma forma de exaltar o sacrifício de Cristo por nós, uma vez que, conforme lemos nesta última citação, evidencia ao mundo que Deus enviou o Seu Filho.

Vale ressaltar que, “se bem que não possamos pretender perfeição da carne, podemos possuir perfeição cristã da alma.” (Mensagens Escolhidas, vol. 2, pág. 32). Essa perfeição devemos continuamente buscar.

Considerações finais

No quadro a seguir, procurei resumir os aspectos principais do que expliquei até aqui sobre os tipos de perfeccionismo:

Perfeccionismo desadaptativo Pautado em expectativas ou alvos inalcançáveis. Gera sentimento de culpa, produz ansiedade, baixa tolerância aos erros e está associado a uma série de problemas psíquicos.
Perfeccionismo adaptativo Pautado em padrões elevados, contudo possíveis de serem alcançados mediante esforço. Há o reconhecimento de capacidades e limitações, e a produção de sentimentos positivos.
Perfeccionismo teológico Pautado na falsa crença de que é possível obter impecabilidade nesta vida. Esse grau de perfeição é, supostamente, alcançado por meio de falso reavivamento promovido, entre outras coisas, por um culto sensorial. O indivíduo é conduzido à falsa crença de que não peca mais.

Poderíamos ainda nos aprofundar mais e falar sobre perfeccionismo auto-orientado, orientado para os outros e socialmente prescrito. Farei isso em outra oportunidade. Mais uma vez recomendo aos interessados que pesquisem sobre o assunto. Algumas indicações de leitura estão no final deste texto.

Uma pessoa que seja perfeccionista do tipo desadaptativo e teológico, ao mesmo tempo, certamente experimentará grande sofrimento. A mistura desses dois tipos de perfeccionismo é realmente danosa.

Sobre o perfeccionismo adaptativo, gostaria ainda de acrescentar duas observações. A primeira é que ele se aproxima bastante da fidelidade cristã. No entanto, não devemos confundir as duas coisas, uma vez que o traço de personalidade perfeccionista adaptativo não implica necessariamente padrões morais cristãos elevados. Os padrões elevados que o indivíduo busca alcançar pode sequer se referir a aspectos morais.

A segunda observação é que, apesar de ser um traço de personalidade que traz muitas vantagens para quem o possui, não é uma característica que agrada a muitas pessoas. Imagine, por exemplo, dois irmãos de sangue. Um obedece aos pais em tudo e esforça-se dando o seu melhor em tudo o que faz. O outro não se sujeita a todas as ordens dos pais e não se preocupa com a excelência daquilo que faz. Para o segundo irmão, o primeiro irmão é um incômodo. Ele é a denúncia viva de sua mediocridade e rebeldia. É natural, então, que este irmão pense que o outro se acha melhor ou quer ser o melhor. Esta situação se aplica bem também a quem preza pela fidelidade a Deus em tudo. Temos diferentes exemplos bíblicos disso, a começar pelos primeiros irmãos – Caim e Abel.

Deus chama pessoas com diferentes traços de personalidade para sua obra. Ele chamou Pedro, e chamou também André. Ele chama pessoas que têm como traço de personalidade o perfeccionismo adaptativo. E essas pessoas não devem se sentir culpadas por desejarem fazer sempre o melhor que podem, especialmente quando se trata do trabalho na obra de Deus.

Quanto aos perfeccionistas teológicos ou aos que tenham o perfeccionismo desadaptativo como traço de personalidade, sejamos bondosos e amáveis ao lidarmos com eles como devemos ser com qualquer pessoa que necessita corrigir aspectos importantes em sua vida. Afinal de contas, qual de nós é perfeito e não possui nada que necessita corrigir?

Por fim, caso você se identifique com o perfeccionismo desadaptativo e perceba que tem sofrido em função desse traço de personalidade, busque ajuda profissional. Sua saúde física e mental será grandemente beneficiada por um tratamento adequado.

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