Reflexões de um coração covarde

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Não sei ao certo o que estou sentindo agora. Mas não é um bom sentimento.

Ao lado da casa onde moro há um terreno e um principio de construção. Ali vive um mendigo. Em quase dois anos que moro aqui, nunca se quer ouvi sua voz. Nunca incomodou ainda que minimamente.

Dez minutos atrás eu sai correndo do meu quarto ao ouvir gritos de uma mulher desesperada:

– Sai dai moço, sai dai!!!

Desci correndo e como na maior de todas as surpresas que tive em minha vida, o pobre homem estava em chamas.

Alguém criminosamente, jogou combustível nele e ateou fogo. Sei que havia combustível pois peguei a mangueira do jardim e mesmo com água tive muita dificuldade em conter o fogo.

Penso nele e em quem fez isso. Como alguém pode ter a mínima motivação para fazer algo assim? O que leva um ser humano fazer algo tão bárbaro?

No final das contas, eu sinto pena, e muita, tanto da vítima quanto do agressor.

=(

Esse foi o desabafo de meu esposo em seu facebook, ontem à noite, após ajudar a socorrer um morador de rua que dorme em um espaço coberto, em um terreno ao lado de nossa casa.

Eu ainda estava no trabalho quando tudo aconteceu, e ao chegar em casa, meu esposo, meu pai, um vizinho e um rapaz que passava de carro no momento do fogo, estavam ajudando o moço e aguardando o SAMU e a polícia. A esposa e os filhos do rapaz que havia parado para ajudar, aguardavam em outro carro. Uma pessoa que estava passando de carro na hora do crime, voltou até o local, disse que os rapazes que haviam feito aquilo estavam em um determinado local e que havia contactado a polícia. Caia uma chuvinha fina, já estava escuro, e eu não me conformava com aquela cena.

Eu, que vivo repetindo para mim mesma a frase: “nada que é humano me é estranho”, olhava com estranheza para o resultado daquele ato de brutalidade. Era a segunda vez que esse moço sofria um atentado ao lado de nossa casa. Da primeira vez ele não estava no local, então o fogo consumiu apenas as poucas coisas que ele possuía. Dessa vez, os bandidos o encontraram lá, e ao que parece, fizeram o “serviço completo”.

Depois que o socorro foi prestado pela polícia e o SAMU, entrando para casa, meu pai contou que a moça que gritou ao ver o moço em chamas, o puxou para fora do fogo. Eu que já não estava bem, fiquei ainda pior. Na mesma hora, senti que minha indignação era um tanto quanto pobre. Pobre pela pobreza do meu espírito covarde. Explico: ao ouvir que aquela moça havia tirado ele do fogo, me questionei se teria coragem de fazer o mesmo. Em minha mente, certamente eu gritaria para atrair toda a vizinhança para ajudar, mas não sei se colocaria minha mão no fogo. Pelo menos, em sã consciência, não me atrevo dizer que faria isso. Talvez, diante das circunstâncias eu até me surpreenderia com uma atitude corajosa de minha parte. Mas, não quero confortar meu coração com essa ideia. Prefiro me ater ao pensamento de que ainda sou covarde. Invejei a atitude daquela moça e senti pena de mim mesma.

Vários amigos comentaram o desabafo de meu esposo. O descontentamento foi unânime. Graças a Deus por isso! Mas, o que de fato estamos dispostos a fazer por essas pessoas?

Moro em Joinville. Aqui tem poucos moradores de rua. Pelo menos, até hoje, este moço é o único que eu vi realmente dormir na rua. Até o ano passado, eu morava em uma realidade muito diferente. Estava acostumada a ver pessoas dormindo nas praças e debaixo das pontes. Aqui não. Além disso, esse morador de rua era muito discreto. Em quase dois anos que moramos nessa casa, ele nunca nos incomodou. Sequer pediu um copo de água. Já mexeu em nosso lixo sim, antes que os lixeiros passassem, à procura de algo para comer. E lembro de meu estômago embrulhar ao ouvir minha mãe dizer que no primeiro incêndio, ela e meu pai (que limparam o local) encontraram algo que havíamos jogado no lixo porque estava estragado. Ele pegou esse alimento estragado para comer. Enfim… ele não incomodava a vizinhança.

Como ele, existem muitos por aí, vítimas da fome, do frio, da chuva, dos vícios e… infelizmente, vítima de ataques de outros seres (também) humanos.

Eu pergunto mais uma vez: o que de fato estamos dispostos a fazer por essas pessoas. A Palavra de Deus diz que “por se multiplicar a iniqüidade, o amor de muitos esfriará.” Mateus 24:12. Costumamos ler esse verso e pensar em pessoas como esses que tiveram coragem de atear fogo no mendigo. Mas se somos omissos, se não fazemos nada por essas pessoas, se somos covardes, creio que esse verso também serve pra nós. Vários dos crimes noticiados na TV não nos assustam mais? Nosso amor está esfriando. Nosso coração não dói ao ver o olhar de um faminto? Nosso amor está esfriando.

Há algumas semanas, lendo um texto de Ellen White, no primeiro capítulo do livro Caminho a Cristo, me deparei com a seguinte frase: “Via em todos os homens almas caídas, cuja salvação constituía o objeto de Sua missão.” p. 12. O que vou dizer, parece óbvio, mas foi nesse momento que realmente caiu a minha ficha. Jesus via em mendigos e moradores de rua almas cuja salvação constituía objeto de Sua missão. Desde então tenho sentido grande incômodo, e ontem à noite ele aumentou ainda mais. O Espírito Santo tem me movido a tomar algumas atitudes. Oro para que Deus permaneça a me incomodar para que eu possa ir até o fim.

Mas… proponho a você que faça uma reflexão. Seu amor tem esfriado? O que você tem feito por essas pessoas? Suas obras se resumem ao Mutirão de Natal? Campanhas pontuais, como o Mutirão de Natal são importantes, mas muitas vezes são amortecedores de nossa consciência acomodada que nos move a trabalhar apenas uma vez no ano.

Que o Senhor nos dê amor!!

2 Comentários


  1. Olá Karyne,

    Penso que vem a propósito este testemunho que deixei algum tempo atrás.

    É de um trabalho de muitas igrejas na zona do Porto, aqui em Portugal. Fazem-no todas as semanas.

    Abraço.


  2. Que maravilha saber que existe esse trabalho em outros lugares no mundo, Filipe! No ES tínhamos um trabalho parecido, mas era pra pessoas que passavam a noite na calçada do hospital infantil, aguardando pra seus filhos serem atendidos, ou então, aguardando que eles passassem por algum procedimento.
    Em nossa Associação temos o Projeto Ágape, mas tenho pensado em algo mais, algo que seja uma prática diária, e já tenho formatado algumas ideias!!!

    Que Deus continue abençoando a IASD em Portugal! Ore por nós aqui no Brasil!

    Abraços

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